A decisão da Força Aérea dos EUA de excluir o KC-390 Millennium do seu planejamento reforça o domínio do KC-46 Pegasus e impõe um novo desafio estratégico à indústria de defesa brasileira no mercado internacional.
Miguel Ángel Scovenna Rivero y Hornos | Sociedade Militar
A Força Aérea dos Estados Unidos (USAF) declarou que não tem interesse no KC-390 Millennium e reiterou apoio integral ao KC-46 Pegasus, da Boeing. A posição, embora técnica, carrega peso estratégico: ela consolida a dependência americana de um fornecedor doméstico e limita a entrada do cargueiro brasileiro no maior orçamento de defesa do mundo.
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| O KC-390 Millennium é o principal cargueiro militar da Embraer e disputa espaço no mercado global de aeronaves-tanque. |
O recado é direto. Em um setor sensível como o de reabastecimento em voo, os EUA optam por preservar sua base industrial e manter o KC-46 Pegasus como espinha dorsal logística. Para o KC-390 Millennium, isso reduz dramaticamente qualquer expectativa de penetração no mercado norte-americano e influencia decisões de aliados.
Sem aval da USAF, KC-390 perde a maior vitrine militar do planeta
A ausência de interesse da USAF significa, na prática, que o KC-390 Millennium fica fora do ciclo de padronização da maior força aérea do mundo. E, como consequência, perde visibilidade estratégica em países que buscam interoperabilidade com os EUA.Além disso, a decisão reforça a lógica de blocos industriais. Ao priorizar o KC-46 Pegasus, Washington protege empregos, tecnologia sensível e cadeias logísticas internas. Em um ambiente geopolítico fragmentado, essa escolha não é apenas operacional, é também política.
Vale lembrar que aeronaves-tanque são ativos críticos. Elas sustentam projeção de poder, operações expedicionárias e missões de dissuasão. Portanto, qualquer definição nesse segmento impacta alianças e acordos militares de longo prazo.
Aposta no KC-46 redefine o jogo global dos reabastecedores
O mercado internacional de aeronaves de reabastecimento vive uma fase de renovação. Diversos países substituem frotas antigas e avaliam custos, desempenho e integração doutrinária. Nesse contexto, o KC-390 Millennium vinha sendo apresentado como alternativa competitiva.Contudo, quando a Força Aérea dos Estados Unidos reafirma publicamente sua confiança no KC-46 Pegasus, ela envia um sinal claro a parceiros estratégicos. Historicamente, muitos países alinham suas compras à plataforma utilizada pelos EUA para garantir compatibilidade operacional e acesso facilitado a treinamento e suporte.
Assim, ainda que o KC-390 Millennium mantenha contratos e negociações em outros mercados, a falta de chancela norte-americana pesa. Não se trata apenas de performance técnica, mas de influência geopolítica.
Decisão expõe disputa industrial e limites de soberania
Para o Brasil e para a indústria nacional de defesa, o episódio revela um limite estrutural. O KC-390 Millennium permanece como um dos principais programas estratégicos da Embraer Defesa e Segurança. Entretanto, a exclusão do mercado dos EUA reduz potencial de escala e efeito demonstração.Ao mesmo tempo, a Boeing consolida o KC-46 Pegasus como referência dentro do sistema militar ocidental. Isso tende a fortalecer sua posição em futuras concorrências internacionais, sobretudo entre países alinhados à órbita estratégica americana.
Em síntese, a decisão da USAF vai além de uma simples preferência de plataforma. Ela reforça a centralidade da soberania industrial nas grandes potências e confirma que, em setores críticos como o reabastecimento em voo, escolhas técnicas caminham lado a lado com interesses estratégicos.

