Ataque a escola feminina no Irã provoca 175 mortos: o que já se sabe sobre o bombardeamento (VIDEO)

Imagens do ataque surgiram nas redes sociais no sábado, e mostravam dezenas de pessoas em redor de um edifício que se tinha desabado. A veracidade do mesmo já foi confirmada por meios ocidentais e o balanço provisório também inclui quase 100 feridos


Catarina Maldonado Vasconcelos | Expresso

Pelo menos 175 pessoas morreram no ataque com mísseis a uma escola feminina no sul do Irão, de acordo com órgãos de comunicação estatais do país e fontes hospitalares, citadas pelo "New York Times". O ataque, num momento em que os EUA e Israel realizam uma operação militar conjunta contra o Irão, atingiu a escola primária feminina Shajarah Tayyebeh, na cidade de Minab, no sul iraniano.

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A escola encontrava-se repleta de alunas no momento do ataque. A agência de notícias IRNA adianta, citando um procurador local, que 96 pessoas ficaram feridas no ataque de sábado em Minab. Também as Nações Unidas, que condenaram o bombardeamento, referiram que o número de mortos era de cerca 150 e que o número de feridos se aproximava dos 100. O acontecimento foi criticado num comunicado das Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), que classificou o ataque como uma grave violação do Direito internacional.

A agência alertou que as escolas são espaços protegidos pelo direito humanitário, realçando que “os ataques contra instituições de ensino põem em risco alunos e professores e prejudicam o direito à educação”.

A UNESCO juntou-se a outros órgãos e autoridades da ONU, incluindo o Secretário-Geral António Guterres, na denúncia tanto dos ataques militares em curso como dos ataques de retaliação do Irão em diversas partes do Médio Oriente. O direito internacional humanitário radica de princípios fundamentais que devem orientar todas as decisões das forças armadas em relação aos seus alvos: a distinção, a proporcionalidade e a necessidade militar. Também ao abrigo do direito internacional humanitário, preconiza-se que devem ser tomadas precauções para evitar danos contra civis.

Assim, os ataques só podem ser dirigidos contra combatentes e alvos militares. Os civis e os alvos civis, como escolas, hospitais e transportes públicos, são protegidos pelo direito internacional e não podem ser visados ​​diretamente. Em caso de dúvida sobre se um alvo é de natureza militar ou civil, deve ainda presumir-se que é civil. Os menores de 18 anos estão também protegidos ao abrigo do direito internacional humanitário, não podendo ser alvos diretos.

Mas esta proteção não é absoluta: qualquer edifício civil pode perder o seu estatuto de proteção especial se for utilizado como base militar, posição de artilharia ou posto de comando. Até à data, não há provas de que a escola em Minab estivesse a ser utilizada para fins militares ou de que tenha sido um alvo intencional. A teoria mais referida na imprensa internacional é de que este ataque se trate de um dano colateral incidental de um ataque dirigido ao quartel da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC, na sigla inglesa) nas proximidades.

Nas primeiras horas após o ataque, surgiram dúvidas acerca da veracidade do bombardeamento. Mais tarde, os vídeos foram verificados por meios de comunicação internacionais como o jornal “The New York Times”. As imagens mostravam equipas de resgate a escavar o betão que tinha desabado, mochilas e manuais escolares a serem retiradas dos escombros e um rasto de destruição nas paredes que se mantiveram de pé.

O jornal “The New York Times” afirma. aliás, ter verificado vídeos que mostram a escola junto a uma base naval pertencente à Guarda Revolucionária Islâmica do Irão e um ataque a atingir essa base. Imagens de satélite analisadas pelo “The Times” mostram que, em 2013, o edifício da escola fazia parte da base. Estradas ligavam outras zonas da base ao edifício da escola atingido no sábado. Em setembro de 2016, as imagens de satélite mostram que já havia um muro entre o edifício escolar e a base, ou seja, já não havia ligação física entre ambos.

Os representantes iranianos nas Nações Unidas definiram o ocorrido como um ataque deliberado contra as infraestruturas civis, como “crime de guerra” e como “crime contra a Humanidade”. Nem os Estados Unidos nem Israel confirmaram publicamente o ataque à escola. Os militares israelitas garantiram desconhecer qualquer ataque lançado pelas suas forças ou pelos EUA contra uma escola. O capitão Tim Hawkins, porta-voz do Comando Central norte-americano, declarou que os EUA estão “conscientes dos relatos de danos a civis resultantes de operações militares em curso".

“Levamos estas denúncias a sério e estamos a investigá-las”, prosseguiu o porta-voz do Comando Central norte-americano. Aquele alto responsável norte-americano acrescentou que a proteção dos civis era de ”extrema importância". Hossein Kermanpour, porta-voz do Ministério da Saúde do Irão, afirmou numa publicação, na plataforma X, que o bombardeamento da escola foi “a notícia mais amarga” do conflito até à data. “Deus sabe quantos mais corpos de crianças serão retirados dos escombros.”

A Prémio Nobel da Paz e ativista pela educação feminina, Malala Yousafzai, declarou: “Eram raparigas que iam à escola para aprender, com esperanças e sonhos para o futuro. Hoje, as suas vidas foram brutalmente interrompidas. A justiça e a responsabilização devem ser procuradas. Todos os Estados e partes devem cumprir as suas obrigações perante o direito internacional de proteger os civis e salvaguardar as escolas.”

Já a organização de direitos humanos Hengaw (que denuncia os abusos de direitos humanos no Irão) frisou, num comunicado emitido no domingo, que a escola, que terá cerca de 170 alunas matriculadas, estava localizada perto de uma base naval operada pela Guarda Revolucionária Islâmica. “O estabelecimento e a expansão de instalações militares nas proximidades de escolas e espaços públicos colocam os civis em maior risco”, refere o comunicado. “De acordo com o direito internacional humanitário, o uso de áreas civis para proteger objetivos militares é proibido.”

Um porta-voz do Crescente Vermelho afirmou que pelo menos 555 pessoas morreram em ataques ocorridos em todo o território iraniano.


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