Mesmo com orçamento limitado, Brasil amplia liderança em submarinos enquanto 75% da frota da América Latina perde poder naval

Relatório do IISS aponta estagnação submarina na região, destaca o PROSUB e projeta impacto do futuro submarino nuclear no equilíbrio do Atlântico Sul.


Campos | Sociedade Militar

Enquanto 75% dos submarinos ativos na América Latina operam modelos das décadas de 1970 e 1980, o Brasil é o único país da região com planos ambiciosos, o que inclui construir um submarino de propulsão nuclear.

Submarino Humaitá durante operação inédita na Margem Equatorial em 2025, área estratégica para a projeção naval brasileira no Atlântico Sul. Foto: Divulgação/Marinha

A avaliação é do International Institute for Strategic Studies (IISS), responsável por um dos relatórios militares mais respeitados do mundo. Segundo o instituto, o Brasil também foi o único a superar a dependência das versões antigas do projeto alemão Tipo-209, ainda predominantes na região.

A Argentina é usada como exemplo negativo por estar com a força submarina praticamente inoperante e correndo o risco de se tornar obsoleta. Em caso de falta de providências, o mesmo destino espera Colômbia, Equador e Venezuela.

Para o IISS, a América Latina apresenta hoje no geral o cenário mais questionável em termos de ambição e modernização submarina no mundo.

“Adquiridos nas décadas de 1970 e 1980, esses submarinos estão defasados ​​em relação aos requisitos operacionais modernos. No geral, esta é a região cujo status e nível de ambição em relação aos submarinos são provavelmente os mais questionáveis”.

Modelos brasileiros

A ambição brasileira apontada pelo IISS, a despeito das questões orçamentárias, se deve ao Prosub (Programa de Submarinos da Marinha do Brasil).

Trata-se de um amplo programa estratégico do Brasil, concebido em 2008, em parceria com a França (Naval Group).

O objetivo do Prosub é construir infraestrutura industrial e de apoio à operação e manutenção de submarinos, incluindo a construção de 4 submarinos convencionais, ou seja, movidos à propulsão diesel-elétrica, e o primeiro SPNC (submarino convencional armado com propulsão nuclear).

Os quatro submarinos convencionais já foram lançados ao mar (Riachuelo, Humaitá, Tonelero e Almirante Karam), apesar do último ainda não estar em operação. Já o SCPN Álvaro Alberto tem previsão de ficar pronto até 2035. Seis anos mais tarde que o esperado.

O papel dos submarinos nucleares

De acordo com a Estratégia Nacional de Defesa do país, atualizada no final de 2025, o SCPN elevará consideravelmente a capacidade de defesa do Brasil no Atlântico Sul.

Equipamentos militares como esse têm:
  • Autonomia ilimitada
  • Alta velocidade sustentada
  • Menor vulnerabilidade operacional
  • Maior persistência
  • Capacidade multimissão

Os submarinos de propulsão nuclear são tão importantes para as potências mundiais que a China investiu pesadamente em suas instalações de construção naval e acabou de passar os EUA, pela 1ª vez, no número de toneladas submarinas conjuntas lançadas.

Segundo o IISS, entre 2021 e 2025 o gigante asiático lançou 79.000 toneladas em produção submarina. Já os EUA lançaram 55.500. Os dados foram divulgados em 16 de fevereiro.

Apesar de os submarinos nucleares chineses serem considerados menores e menos sofisticados que os americanos e europeus, um maior número representa desafio crescente para os rivais.

América Latina decadente

Mesmo o Brasil lançando “apenas” 4.400 toneladas de produção submarina no mesmo período que China e EUA, ou seja, em média 15 vezes menos, e ainda de propulsão diesel-elétrica em vez de nuclear, o IISS seguiu destacando o país e, ao mesmo tempo, alertando a América Latina para o cenário desfavorável.

Para o Instituto, mesmo sendo uma região global importante na operação de submarinos, a América Latina é, proporcionalmente, a que possui a frota mais antiquada.

“A falta de recursos para a modernização e manutenção das plataformas existentes é evidente”, afirma.

Recursos para a defesa são insuficientes

Ninguém do meio político pode dizer que a falta de recursos para a defesa é uma novidade. Há 4 anos, a afirmação está presente nas entrevistas do ministro José Múcio Monteiro, que ainda luta para aprovar previsibilidade orçamentária para sua pasta.

Nesta segunda-feira, 2 de março, ao comentar os bombardeios promovidos pelos EUA e Israel no Irã, e a consequente escalada das tensões no Oriente Médio, o ministro mais uma vez não perdeu a oportunidade.

“As Forças Armadas brasileiras existem para dissuasão. Nós protegemos o nosso país. Quando digo que precisamos de investir mais em Defesa é para defender o que somos, o que temos, as nossas riquezas que são muitas”.

Recentemente, depois de muita negociação com o Congresso Nacional, o ministro da Defesa obteve a aprovação de R$ 30 bilhões fora do orçamento para investir em projetos estratégicos.

Fazem parte desse portfólio de projetos estratégicos de defesa (2020-2031):
  • Programa Nuclear da Marinha (PNM)
  • Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB)
  • Programa Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul (SisGAAz)
  • Programa de Desenvolvimento de Navios-Patrulha (PRONAPA)
  • Programa Defesa Cibernética na Defesa Nacional (PDCDN)
  • Programa Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (SISFRON)
  • Programa Estratégico ASTROS
  • Programa Estratégico Forças Blindadas
  • Programa Estratégico de Sistemas Espaciais (PESE)
  • Programa SISDABRA
  • Programa KC-390
  • Programa F-39
  • Programa Estratégico de Comando e Controle de Defesa
  • Projeto HX-BR
  • Projeto TH-X

Defesa primeiro

Em entrevista à jornalista de O Globo, Miriam Leitão, publicada em 16 de janeiro, José Múcio ressaltou como tudo em defesa é caro.

“Nós precisamos, vamos dizer assim, de 40 aviões. Um avião custa US$ 100 milhões. Um submarino custa 800 milhões de euros. Os números são gigantescos”.

Para o ministro, mesmo com os R$ 30 bilhões extras, fracionados em R$ 5 bilhões pelos próximos 6 anos, é pouco recurso para recuperar o tempo perdido.

“O que eu defendo muito é que defesa não faça parte do Orçamento. Porque se nós formos comparar prioridade, nós temos outras prioridades para investir: fome, educação e outras coisas (…) Eu quero que a defesa seja uma prioridade absoluta”.
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