A Marinha dos Estados Unidos é uma das mais poderosas do planeta. Com uma frota de onze porta-aviões, 66 submarinos e 83 contratorpedeiros, tem uma capacidade naval que ultrapassa largamente a de qualquer aliado europeu. Ainda assim, Donald Trump está a exigir ajuda dos aliados para reabrir o Estreito de Ormuz - e ameaçou quem não ajudar
Marta Coropos Carvalho | CNN Portugal
"Trump é um especialista em fazer manobras de diversão" - e esta exigência feita aos aliados é mais uma dessas manobras, aponta o major-general Agostinho Costa. O comentador da CNN Portugal considera que, neste caso, não se trata de "falta de meios militares" - é uma "manobra comunicacional" para "passar as culpas" e dividir responsabilidade numa guerra que não está a correr como esperado.
![]() |
| Donald Trump |
Quase três semanas após o início do conflito com o Irão, vários dos objetivos estratégicos continuam longe de ser atingidos: destruição do programa nuclear iraniano, enfraquecimento da Marinha de Teerão, neutralização das defesas antiaéreas e até a hipótese - nunca assumida oficialmente mas frequentemente referida nos bastidores - de provocar uma mudança de regime. Nada disso foi alcançado de forma decisiva. "A coisa não está a correr bem", aponta Miguel Baumgartner.
Nesse contexto, a presença de algumas fragatas europeias no Golfo pode parecer irrelevante do ponto de vista militar, mas teria um peso político enorme. A presença de navios franceses, britânicos, alemães ou italianos permitiria a Washington apresentar o confronto não como uma guerra dos Estados Unidos - ou de Israel - mas como uma resposta internacional a uma ameaça global - o dito "império do mal", quase como se reeditando a guerra que George W. Bush lançou em 2003 contra o Iraque. Não era o "império do mal", mas o "eixo do mal", ao qual também pertencia o Irão. Dessa vez, a Europa foi atrás, mas agora parece não ser assim tão claro.
"Donald Trump não está preocupado com os militares, ele não quer as forças da NATO. Quer é que esses países venham dizer publicamente 'nós estamos do lado dos Estados Unidos porque os Estados Unidos estão a ser atacados. A nossa forma de vida está a ser atacada. Vejam o problema económico que o Irão está a criar e, portanto, nós vamos todos socorrer o mundo em nome da estabilidade económica porque o problema é o Irão'", argumenta o especialista em Relações Internacionais.
Essa dimensão política torna-se ainda mais evidente na forma como o presidente norte-americano tem falado com os aliados. Ao afirmar que se "lembrará" de quem ajudar ou não, Trump colocou os parceiros da NATO perante uma escolha: alinhar com a posição norte-americana ou arriscar consequências na sua relação estratégica. Para Miguel Baumgartner, trata-se de um estilo de negociação muito característico do líder do país. "Ele parece o típico bully. Aquele que, quando não consegue aquilo que quer, aumenta a pressão e faz ameaças".
No entanto, e até então, parece que as ameaças não se têm feito ouvir em solo europeu. Alemanha, Reino Unido, Itália e Grécia são alguns dos países que já garantiram que não vão ceder às intimidações norte-americanas. Também o ministro português dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, afirmou esta segunda-feira que "Portugal não está nem vai estar envolvido no conflito", afastando a hipótese de qualquer "deslocação de meios militares para a região e especialmente para o Estreito de Ormuz".
Na opinião de Agostinho Costa, Donald Trump está "desesperado" e "perdido": "A guerra não lhe correu como ele achou que ia correr porque talvez Israel ou os seus chefes militares venderam-lhe uma ideia que não está a acontecer e ele agora precisa de partilhar responsabilidades".
Desde logo porque a própria ideia de abrir o estreito pela força é, no mínimo, "altamente problemática", uma vez que a geografia joga claramente a favor de Teerão, explica o major-general. Drones, mísseis costeiros, minas marítimas, embarcações rápidas e até minissubmarinos fazem parte do arsenal iraniano disponível para operar naquela zona estreita de mar. Na prática, explica, isso significa que qualquer tentativa de garantir a navegação terá sempre custos elevados e riscos consideráveis: "Qualquer pessoa minimamente informada percebe que a abertura do estreito pela força não é exequível em termos daquilo que seria aceitável.
A consequência é que o presidente norte-americano está a perder apoio, "nomeadamente na base do grupo MAGA", considera Miguel Baumgartner. "A inflação é uma coisa que na América é destrutiva para qualquer governo e temos neste momento a economia americana com problemas, o aumento do preço do petróleo e o aumento do preço da vida". Além disso, em novembro, a popularidade de Donald Trump vai ser posta à prova nas eleições intercalares.
"Ele precisa de dizer à população norte-americana 'atenção, vocês estão a ver, a guerra não é só minha, olha os alemães, olha os ingleses, olha os franceses, olha os italianos, olha os portugueses, também lá estão a tentar defender o Estreito de Ormuz'."
Tags
Alemanha
Estreito de Ormuz
EUA
Europa
Golfo Pérsico
Grécia
Irã
Iraque
Israel
Itália
OTAN
Portugal
Reino Unido Inglaterra Grã-Bretanha

