A presença portuguesa em Ormuz estendeu-se por mais de um século, no âmbito da expansão do Império pela Ásia. O historiador Rui Manuel Loureiro explicou à Euronews quais eram os principais interesses nacionais na região do Golfo Pérsico.
De Ema Gil Pires | Euronews
Trata-se de uma passagem estreita por onde habitualmente passa cerca de um quinto da produção mundial de petróleo e que, também por isso, é considerada uma das principais rotas marítimas a nível global, de uma importância económica e geostratégica muito expressiva.
Assim é caracterizado atualmente o Estreito de Ormuz, mas também o era no passado, há vários séculos. Mais concretamente, há cerca de 500 anos, período em que a ilha com o mesmo nome localizada nesse estreito, a qual está agora sob dependência do Irão e que fica mesmo à entrada do Golfo Pérsico, foi controlada por Portugal.
Nos últimos tempos, Ormuz tem feito manchetes pelo facto de o bloqueio ao estreito realizado pelo Irão estar a causar fortes disrupções no transporte de bens energéticos, mas também de outros produtos. O tráfego comercial de e para a região está assim parcialmente interrompido, com consequências que se estima que possam ser, a longo prazo, devastadoras para a economia mundial.
Uma estratégia que revela como o domínio de uma das principais vias marítimas globais pode ter impacto significativo nas dinâmicas de poder entre as nações - e entre os Impérios, noutras épocas da História, tal como foi feito por Lisboa.
"Controlar Ormuz foi uma das ideias desenvolvidas pela coroa portuguesa nessa época, para tentar controlar uma parte do comércio internacional no Oceano Índico", explicou o historiador Rui Manuel Loureiro, com obra publicada sobre a presença portuguesa em Ormuz nos séculos XVI e XVII, em declarações à Euronews.
Como (e quando) os portugueses chegaram a Ormuz
Numa perspetiva histórica, segundo detalhado pelo investigador, a "importância estratégica de Ormuz" nos dias de hoje "continua a ser exatamente a mesma que era no século XVI", quando os navegadores portugueses chegaram à região do Golfo Pérsico, sob comando de Afonso de Albuquerque, o "nome célebre" que ficou para a História pela conquista de Ormuz. Isto durante os tempos do rei Dom Manuel I, "a figura que dirigiu todo o projeto expansionista [de Portugal] até 1521".Mas a presença portuguesa em Ormuz iniciou-se alguns anos antes, em 1507, tendo-se depois estendido até 1622. Foi na primeira dessas datas que Afonso de Albuquerque - governador da Índia entre 1509 e 1515, ano da sua morte - liderou uma primeira investida à ilha. Porém, só "em 1515 é que efetuou a conquista" propriamente dita, e consequente ocupação, "do Reino de Ormuz".
Em causa aquela que era "uma entidade autónoma da Pérsia" e que "possuía pequenos entrepostos territoriais dos dois lados do Golfo". Dessa forma, "os portugueses apropriaram-se desse reino [...] e Ormuz tornou-se uma espécie de protetorado da coroa portuguesa", afirmou o historiador. Pese embora o rei de Ormuz, a quem coube até então a legítima governação local, fosse mantido "em funções" - ainda que, "provavelmente", não tivesse qualquer "poder formal e absoluto".
Foi também neste contexto que "durante este período de mais de 100 anos, os portugueses controlaram uma fortaleza na Ilha de Ormuz", da qual "ainda hoje existem vestígios" e que "era a maior fortaleza europeia no continente asiático", elaborou o especialista do ISMAT - Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes, em Portimão.
Um território que tem sido alvo, recorde-se, de uma intensa mediatização desde o começo da operação militar dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão. Uma ilha que é "completamente deserta" e onde "tudo o que é consumido tem de vir do continente".
Porém, a sua importância, tanto atualmente como no século XVI, vai muito além daquilo que pode ser encontrado fisicamente no local. "Era um local estratégico do ponto de vista comercial, como ainda é hoje. Todo o comércio dos países do Golfo Pérsico com a Índia e a costa africana passava pelo Estreito de Ormuz."
Rui Manuel Loureiro contou ainda à Euronews que, a partir de Ormuz, o Império Português "controlava e impunha taxas, e impostos, sobre todo o tipo de comércio que por ali passava", dotando-o de um papel central numa "parte significativa deste movimento mercantil". Por essa altura, os "cavalos de origem persa e árabe, que eram transportados para a Índia", mas também os tapetes e especiarias de produção local, estavam elencados entre as "mercadorias mais importantes".
"Os interesses dos portugueses estavam, sobretudo, ligados a este tráfego de mercadorias de luxo que circulavam na região, entre o Golfo Pérsico e a Índia, entre o Golfo Pérsico e África, em ambos os sentidos", recordou o historiador.
A aposta portuguesa em Ormuz (e na região)
O controlo do Império Português sobre a Ilha de Ormuz deu-se na sequência da sua chegada à Índia, cerca de 10 anos antes do início deste domínio. "Os portugueses chegaram à Índia em 1498, com a expedição de Vasco da Gama [...]. E rapidamente se aperceberam de que o envolvimento no comércio local seria mais lucrativo, e mais interessante, do que a própria Carreira da Índia", isto é, a rota marítima que ligava Portugal e a Ásia através da Rota do Cabo, que passava ao largo do Cabo da Boa Esperança, no sul do continente africano."Um navio que ia de Lisboa para a Índia, para Goa ou Cochim, que eram as duas cidades culturais mais importantes onde os portugueses tinham presença, demorava seis meses, no mínimo, para cada lado [...]. O que implicava investimentos enormes em navios, em tripulações, em armamento, em alimentação." Mas, de acordo com o investigador Rui Manuel Loureiro, "o mesmo tipo de lucro que fazia uma armada da Carreira da Índia podia ser obtido numa viagem, por exemplo, entre Goa e Macau, ou entre Goa e Ormuz", de duração bem mais reduzida**.**
O que explica a grande aposta portuguesa nesta ilha (e neste estreito), mas também na região de um modo mais abrangente. "O tráfego local era mais lucrativo e exigia menos investimentos, e menos força militar e naval, do que, propriamente, a Carreira da Índia. Por isso, os portugueses vão espalhar-se um pouco por todo o Oceano Índico, desde Moçambique até ao Japão", com o estabelecimento de "feitorias e entrepostos um pouco por todo o lado".
Como os portugueses conseguiram manter o domínio de Ormuz
"Os portugueses conseguiram manter a presença na ilha de Ormuz porque a Pérsia, o atual Irão, que nessa altura já era uma grande potência, estava, sobretudo, virada para o interior." Isto é, relatou Rui Manuel Loureiro à Euronews, tratava-se de um "grande estado continental" que estava especialmente empenhado em "campanhas militares quer contra os otomanos a Ocidente, quer contra os uzbeques a Oriente".Além disso, existia um "acordo" entre as autoridades portuguesas e persas que possibilitou que Lisboa mantivesse o domínio de Ormuz durante quase um século. Um entendimento que não deixou de vigorar, inclusive, "quando Portugal ficou sob domínio espanhol, a partir de 1580", na sequência de uma crise de sucessão ao trono. Por essa altura, o Império tentou "obter a aliança dos Persas contra o Império Otomano", por via do fortalecimento das relações diplomáticas entre as duas partes e do destacamento de embaixadas.
"Ou seja, a ideia dos soberanos europeus, e, nomeadamente, dos soberanos portugueses e espanhóis, era, no âmbito das lutas que tinham no Mediterrâneo com os otomanos, encontrarem um aliado do outro lado" da região, tendo existido "essas tentativas relativamente à Pérsia", disse o investigador.
Mas a manutenção de Ormuz por parte dos portugueses foi conseguida também devido ao "pagamento de taxas" às autoridades persas e à "superioridade marítima que os portugueses conseguiram manter" nesse período, acrescentou o historiador. Foi devido a essa maior capacidade "militar e náutica" que o Império conseguiu "manter o domínio dos mares, nomeadamente do Golfo Pérsico, do Golfo de Omã, do Mar da Arábia, etc., e ter um papel importante em todo este comércio internacional".
Só em "finais do século XVI" é que a Pérsia, que havia já "mais ou menos consolidado a sua extensão política" e tinha o islamismo xiita como religião oficial, decidiu então "virar a sua atenção para o Golfo Pérsico, onde até à data não tinha tido praticamente intervenção".
Foi por essa altura que, segundo o docente do ISMAT - Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes, esse Império, sob o comando do xá Abbas I, "começou, a pouco e pouco, a conquistar todos aqueles entrepostos que eram dominados ou influenciados pelos portugueses". Exemplo disso foi a ilha do Bahrein. Gradualmente, "foram conquistando vários dos pequenos territórios" onde "existiam fortalezas portuguesas" e onde se localizam, atualmente, "os Emirados [Árabes Unidos] e Omã".
Mas a perda de Ormuz propriamente dita deu-se devido a uma "aliança entre os persas e os ingleses, que de facto conseguiram, com a sua superioridade militar e náutica, desinstalar os portugueses de Ormuz", em 1622.
Uma queda que ocorreu, em particular, após "um cerco [levado a cabo] pela marinha inglesa e por tropas persas, que assaltaram sistematicamente a ilha durante algumas semanas ou meses, até que os portugueses acabaram por se render e abandonar Ormuz". Mas importa notar que, depois das tropas do Império Português terem saído desse território, "curiosamente, a ilha perdeu a sua importância", recordou o especialista.
Na entrevista concedida à Euronews, Rui Manuel Loureiro concluiu, afirmando que foi "a partir do momento em que chegam outras potências europeias aos mares asiáticos, nomeadamente a Inglaterra e os Países Baixos, que os portugueses começaram a sofrer embates de potências que eram equiparáveis e, por vezes, superiores em termos de organização náutica e militar e começaram, consequentemente, a perder posições".
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