Estruturado em etapas progressivas, de 1990 a 2010, o projeto do Exército envolveu uma modernização técnica e estratégica do arsenal brasileiro e de sua Base Industrial de Defesa
Por Anne Silva | Revista Fórum
Entre as décadas de 1970 e 1980, como resultado de um programa de nacionalização produtiva de componentes de sua Base Industrial de Defesa (BID) que data de 1967, o Exército Brasileiro iniciou um projeto em parceria com a fabricante Engesa para abastecer seu arsenal com novos blindados de transporte terrestre.
![]() |
| Militar em blindado da família Guarani. Créditos: Wikipedia |
A construção dos blindados brasileiros vinha para substituir a predominância de viaturas importadas, como os modelos usados pelo Brasil durante a Segunda Guerra Mundial, M8 Greyhound, da Ford, e M2 Half-track, produzido por uma parceria entre fabricantes norte-americanas, e envolvia também a criação de centros nacionais de pesquisa e desenvolvimento em Defesa.
Dessa parceria resultaram as famílias de blindados brasileiras Urutu e Cascavel, essenciais para o estabelecimento das bases bélicas do Brasil e da indústria nacional no setor.
O Urutu, um blindado anfíbio desenvolvido para o Exército Brasileiro (batizado em homenagem à cobra venenosa de mesmo nome), foi integrado ao Corpo de Fuzileiros Navais do Brasil e ao BOPE do Rio de Janeiro, mas o sucesso não se restringiu ao país: o veículo foi exportado para mais de 30 outros Estados e usado durante a Guerra Irã-Iraque (entre 1980 e 1988).
Ele recebeu versões de policiamento e evacuação médica, além de um protótipo chamado de Uruvel, adaptado para um canhão de 90 mm.
Já o EE-9 Cascavel, também desenvolvido como parte da parceria com a Engesa, foi um carro de combate de reconhecimento (operação ofensiva que revela a posição inimiga ou busca informações críticas sobre o terreno), equipado com um canhão potente (em geral a torre Cockerill ou a ENGESA ET-90).
Por servir a missões de reconhecimento, o Cascavel foi projetado a partir do sistema de tração integral desenvolvido pela Engesa para ter alta mobilidade e facilidade para percorrer terrenos acidentados e de difícil transposição.
Ele foi o carro de combate principal do Exército Brasileiro ao longo das décadas posteriores e, assim como o blindado Urutu, recebeu muitos pedidos de exportação.
Estima-se que, antes da falência da Engesa, em 1990, o EE-9 Cascavel tenha tido pelo menos 1.484 unidades exportadas, e o EE-11 Urutu, cerca de 699 unidades, tendo como destinos países do Oriente Médio, da África e da América do Sul.
O programa Guarani
Ao longo dos anos 1990, o Brasil reformulou sua política de veículos terrestres com o projeto NFBR (Nova Família de Blindados sobre Rodas), também conhecido como “Urutu III”.No final de 1999, o Exército formalizou os primeiros requisitos operacionais e diretrizes para o programa, que ditavam a substituição das viaturas Cascavel e Urutu e a criação de novos blindados anfíbios modulares e escaláveis em diferentes configurações (6×6, 8×8 e, eventualmente, também 4×4).
O Exército priorizava, nesse momento, sistemas adaptáveis que se encaixassem em vários cenários operacionais, de missões de paz a operações urbanas. O foco do país nunca foi a guerra terrestre direta.
O projeto, no entanto, só passou a ganhar forma a partir de 2007, a partir de uma parceria público-privada estabelecida entre o governo e a Iveco Defense Vehicles, que seria a responsável pelo protótipo de um blindado de transporte de pessoal, o VBTP-MSR.
A ideia foi apresentada durante a feira tecnológica Inovatec, em que o Departamento de Ciência e Tecnologia (DCT) do governo brasileiro lançou uma competição às empresas partes de sua BID (entre elas, Agrale, Avibras, EDAG, Fiat e IESA), a fim de encaminhar a produção da nova geração de blindados.
A Iveco, fabricante de origem italiana, saiu vencedora da competição e instalou sua unidade de produção industrial no município de Sete Lagoas, localizado a cerca de 75 km da capital de Minas Gerais, Belo Horizonte. A instalação da fábrica recebeu aportes financeiros do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
A intenção do programa era internalizar capacidades produtivas estratégicas para a BID brasileira e formar cadeias produtivas nacionais no setor de Defesa, com absorção de expertise da italiana. O programa funcionava, assim, sob a lógica da “cooperação internacional seletiva”, que permite parcerias técnicas com empresas internacionais sob os princípios de reciprocidade e transferência tecnológica.
As parcerias se tornaram múltiplas: a torre UT30BR do blindado, por exemplo, foi desenvolvida pela israelense Elbit Systems, que colabora com o programa de Defesa brasileiro até hoje; e o sistema de proteção e assentos veio da australiana ALLAN-PLATT. O Centro Tecnológico do Exército (CTEx), por sua vez, desenvolveu nacionalmente a torre REMAX, um sistema controlado de forma remota para operar metralhadoras .50 ou 7,62 mm, em parceria com a ARES, empresa brasileira de armamentos que funciona como subsidiária da Elbit desde 2010.
Estruturado em etapas progressivas, de 1990 a 2010, o projeto do Exército envolveu uma modernização técnica e estratégica do arsenal brasileiro e de sua Base Industrial de Defesa (BID). Entre 1990 e 2007, a fase de definição doutrinária e operacional da nova família de blindados antecedeu a seleção dos parceiros industriais do Brasil, que se iniciou em 2007 com o desenvolvimento dos primeiros protótipos das novas tecnologias.
Segundo dados do Ministério da Defesa, o programa teve um custo da ordem de R$ 26 bilhões até então, mas estima-se que alcance R$ 30 bilhões até o horizonte final, previsto para 2040, que abrange a produção de mais de 2 mil viaturas, sistemas de armas, logística, infraestrutura e atualizações ao longo dos próximos anos.
Desse orçamento, foram pagos, até 2024, apenas cerca de R$ 4,26 bilhões, de acordo com o Relatório de Gestão 2024 do Ministério da Defesa.
O Programa Guarani é um dos maiores da história do Exército, de porte comparável apenas a iniciativas como o Astros, programa de míssil nacional, ou o Embraer C-390 Millennium, aeronave de transporte militar produzida pela fabricante brasileira e amplamente aceita nos mercados internacionais.
Entre 2012 e 2016, a média de gastos com o Programa Guarani ultrapassou os R$ 250 milhões, cerca de 25% do orçamento então disponível para investimento, cujo “principal desafio reside na disponibilidade orçamentária”, afirmam, em artigo, os militares Luciano Luiz Goulart Silva, Alzeir Costa dos Santos e Carlos Eduardo de Franciscis Ramos.
Em 2014, foi entregue ao 33º Batalhão de Infantaria Mecanizado, em Cascavel, no oeste do Paraná, o primeiro lote de 13 blindados VBTP-MR Guarani, destinados a substituir, na Infataria, os antigos modelos Urutu e Cascavel.
“Com capacidade para 11 homens – sendo nove combatentes, um atirador e um condutor –, o blindado Guarani contém, além de ar-condicionado, uma série de inovações tecnológicas: baixa assinatura térmica e radar – o que dificulta sua localização pelos inimigos”, explica o Ministério da Defesa.
Conta, além disso, com “proteção blindada para munição perfurante incendiária e minas anticarro; navegação por GPS; freios ABS; visão noturna; motor de 383 cv, com velocidade máxima de 100 km/h; sistema de gerenciamento de campo de batalha; e sistema de consciência situacional”.
Ele também pode ser usado para navegação, já que as hélices traseiras dão ao veículo capacidade de deslocamento anfíbio. “Desde 2013, os militares dos batalhões de infantaria mecanizada das regiões Sul e Centro-Oeste estão recebendo adestramento específico para operar o novo blindado”, continua o MD.
A primeira venda internacional dos blindados Guarani foi feita em 2015 e partiu em direção ao Líbano, que encomendou 10 viaturas 6×6 do modelo brasileiro, com negócio estimado em 30 milhões de euros. Isso marcou, também, a primeira exportação de blindados brasileiros desde a década de 1990, após o colapso da Engesa.
Em 2021, foram enviadas 11 viaturas a Gana e, entre 2020 e 2024, as Filipinas encomendaram 28 viaturas, o maior contrato até então. A negociação recebeu, no entanto, bloqueios de embargo da Alemanha, que afirmou ter participação em componentes militares do veículo (itens de origem alemã) e, portanto, direitos sobre seus destinos de exportação.
O embargo foi uma retaliação à recusa do governo brasileiro em fornecer, à época, munições à Ucrânia a fim de auxiliar os esforços contra a Rússia na guerra travada entre os países após a invasão de 2022.
Em 2023, a Ucrânia havia ensaiado um pedido de 450 viaturas do blindado Guarani, mas o negócio recebeu veto do governo brasileiro e não avançou.
No total, mais de 700 viaturas da família Guarani já foram entregues ao Exército Brasileiro, e o planejamento original era de 2.044 unidades.
Esse número, entretanto, passou por revisão, e foram estimadas 1.580 unidades até 2035. Restrições orçamentárias para o programa de Defesa brasileiro podem fazer com que esse número caia, agora, para cerca de 900 unidades. A fábrica da Iveco em Sete Lagoas, onde os blindados são fabricados, tem capacidade anual máxima de 200 veículos por ano.
Tags
Alemanha
Ásia
Brasil
EE-11 Urutu
EE-9 Cascavel
Europa
Exército Brasileiro EB
Filipinas
Guarani VBTP-MR 6×6
História
Itália
Líbano
M2 Half-track
M8 Greyhound
Oriente Médio
Ucrânia

