Descoberto por pescadores em Guam, Shoichi Yokoi viveu sozinho desde 1944 até 1972, seguindo o código de honra samurai
Por O Globo — São Paulo
Você já imaginou passar quase três décadas acreditando que a guerra ainda estava em curso? Foi o que aconteceu com Shoichi Yokoi, sargento do Exército Imperial Japonês, encontrado em 24 de janeiro de 1972, quase irreconhecível, na densa selva de Guam, ilha do Pacífico que havia sido palco de combates sangrentos durante a Segunda Guerra Mundial.
Descoberto por acaso por dois pescadores, Yokoi vivia sozinho, magro, vestido apenas com trapos de fibras vegetais, sobrevivendo de caça e coleta de frutos. Inicialmente temeroso, ele chegou a implorar para ser morto, convencido de que sua única alternativa à rendição seria o suicídio. Aos poucos, os pescadores o persuadiram de que a guerra havia terminado há quase trinta anos e que o Japão não apenas havia se rendido, mas reconstruído uma relação amistosa com os antigos inimigos.
De volta ao Japão, Yokoi se confrontou com seu próprio túmulo, ainda marcado com o nome do filho que sua mãe jamais acreditou ter morrido em Guam. A frase que pronunciou ao retornar a Nagoya, “É um pouco constrangedor, mas eu voltei”, virou símbolo de uma história de sobrevivência e lealdade extrema — um eco do código samurai que guiou suas decisões por quase três décadas.
A vida após a selva
Durante os anos na selva, Yokoi perdeu contato com quase todos os camaradas. Dois deles morreram enquanto dormiam, sem violência aparente, e ele sobreviveu sozinho em cavernas, vivendo em condições extremas. Ele contraiu tifo e malária, esteve à beira da mort e comia de tudo: sapos venenosos, enguias de rio, todos os tipos de pássaros e os ratos que ali abundavam.Apenas após ser trazido à civilização conseguiu reconstruir sua vida: casou-se, tornou-se figura pública, escreveu memórias — registradas pelo sobrinho — e visitou Guam diversas vezes, mantendo viva a memória de sua jornada.
Embora nunca tenha sido recebido pelo imperador Hirohito, Yokoi encontrou reconhecimento junto ao sucessor, o imperador Akihito, em 1991, considerando esse encontro uma das maiores honras de sua vida. Ele morreu em 22 de setembro de 1997, aos 82 anos, e está sepultado em Nagoya, finalmente reunido com a família que nunca deixou de acreditar em seu retorno.
A história de Shoichi Yokoi é um retrato extremo do fanatismo, da lealdade e da sobrevivência humana. Mais do que um soldado, ele foi um homem que lutou contra o tempo, a solidão e o próprio desconhecimento da realidade, vivendo décadas em um mundo que havia deixado de existir.

