Embaixador dos EUA diz que seria ‘aceitável’ Israel tomar grande parte do Oriente Médio e provoca reação internacional

Declarações de Mike Huckabee geram críticas de países árabes e do Ministério das Relações Exteriores palestino


Por O Globo e agências internacionais — Washington

O embaixador dos Estados Unidos em Israel, Mike Huckabee, afirmou que seria “aceitável” se o Estado judeu assumisse o controle de uma vasta faixa do Oriente Médio, incluindo territórios que, segundo interpretação bíblica mencionada em entrevista, se estenderiam do Nilo ao Eufrates. As declarações foram feitas ao comentarista conservador Tucker Carlson e provocaram reação imediata de países árabes e de organizações regionais neste sábado.

O embaixador dos Estados Unidos em Israel, Mike Huckabee, em agosto de 2025 — Foto: Eric Lee/The New York Times

Durante a entrevista, Carlson afirmou que, de acordo com o Antigo Testamento, os descendentes de Abraão teriam direito a terras que abrangeriam “basicamente todo o Oriente Médio”, incluindo áreas que hoje fazem parte do Egito, da Síria e do Iraque. Em seguida, perguntou diretamente ao embaixador: “Israel tem direito a essa terra?”.

— Não tenho certeza se iríamos tão longe. Seria uma grande extensão de terra — respondeu ele inicialmente, antes de afirmar, diante da insistência de Carlson na pergunta: — Seria aceitável se tomassem tudo. [Mas] não acho que seja disso que estamos falando aqui hoje.

O entrevistador, então, questionou se o embaixador acreditava que seria “aceitável” o Estado de Israel assumir o controle de toda Jordânia. Huckabee afirmou que o governo israelense não está tentando assumir o controle de países vizinhos, mas que “quer proteger seu povo”. O embaixador acrescentou que, em sua avaliação, a discussão não se trata de expandir fronteiras para além do que o Estado judeu já controla:

— Acho que você está deixando algo passar, porque eles não estão pedindo para voltar e tomar tudo isso, mas estão pedindo ao menos para manter a terra que agora ocupam, onde vivem, que possuem legitimamente, e que é um refúgio seguro para eles — declarou.

‘Violação flagrante’

As falas provocaram reação de Egito e Jordânia, além da Organização da Cooperação Islâmica e da Liga dos Estados Árabes. Em notas separadas, as declarações foram classificadas como extremistas, provocativas e em desacordo com a posição oficial dos EUA. O Ministério das Relações Exteriores do Egito afirmou que os comentários representam “violação flagrante” do direito internacional e que “Israel não tem soberania sobre o território palestino ocupado nem sobre outras terras árabes”.

A Liga dos Estados Árabes, por sua vez, disse que “declarações desse tipo — extremistas e desprovidas de qualquer base sólida — servem apenas para inflamar sentimentos e despertar emoções religiosas e nacionais”. O Ministério das Relações Exteriores palestino também criticou Huckabee, afirmando que suas palavras “contradizem fatos religiosos e históricos, o direito internacional e a posição expressa pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que rejeita a anexação da Cisjordânia”.

Em novembro de 2024, pouco depois de ser anunciado como indicado para o cargo pelo presidente Trump, Huckabee declarou apoio à anexação da Cisjordânia ocupada. À Rádio do Exército de Israel, afirmou: “Não serei eu a formular a política, executarei a política do presidente. Mas (Trump) já demonstrou, em seu primeiro mandato, que nunca houve um presidente americano mais disposto a garantir o reconhecimento da soberania de Israel”.

Em setembro passado, no entanto, Trump disse que não permitiria a anexação da Cisjordânia por Israel, enfatizando que “isso não vai acontecer”. Sugerir apoio, ainda que nominal, à soberania israelense sobre grande parte do Oriente Médio representa um afastamento sem precedentes da política externa americana e vai além do que parte significativa da extrema direita israelense defende publicamente.

Desde sua criação, em 1948, Israel não possui fronteiras plenamente reconhecidas. Seus limites com vizinhos árabes foram alterados ao longo de guerras, anexações, cessar-fogos e acordos de paz. Na Guerra dos Seis Dias, em 1967, Israel capturou a Cisjordânia e Jerusalém Oriental da Jordânia, Gaza e a Península do Sinai do Egito e as Colinas de Golã da Síria. Depois, retirou-se do Sinai como parte de um acordo de paz com o Egito após a guerra de 1973 e deixou Gaza unilateralmente em 2005.

Nos últimos meses, Israel ampliou a construção em assentamentos judaicos na Cisjordânia ocupada, legalizou postos avançados e promoveu mudanças administrativas em suas políticas no território. Palestinos defendem há décadas a criação de um Estado independente na Cisjordânia e em Gaza, com Jerusalém Oriental como capital, posição apoiada por grande parte da comunidade internacional.

Sob o cessar-fogo atual em Gaza, Israel retirou tropas para uma zona-tampão, mas ainda controla mais da metade do território, sem que o acordo estabeleça um cronograma para novas retiradas.

1 Comentários

  1. Curiosa a reação dos países árabes, já que estão apoiando os EUA e, por consequência, Israel. Não mexeram um dedo até hoje em defesa dos palestinos. Só blá blá blá. E continuam comprando armamentos americanos e israelenses para seus arsenais.

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