'Turistas de guerra': italianos teriam pago até R$ 600 mil por dia para atirar em civis na Bósnia

O Ministério Público de Milão abriu esta semana uma investigação sobre italianos que, entre 1993 e 1995, teriam pago para atirar em civis durante o cerco de Sarajevo. A denúncia foi apresentada pelo jornalista Ezio Gavanezzi após contato da ex-prefeita Benjamina Karic em agosto de 2025. O caso ganhou força após o documentário Sarajevo Safari.


RFI

De acordo com a imprensa italiana, esses “turistas da guerra”, em sua maioria simpatizantes de extrema direita, ricos e apaixonados por armas, se reuniam em Trieste, no norte da Itália, antes de serem levados às colinas que cercam Sarajevo. Para participar dos “safáris” macabros, pagavam até o equivalente a € 100 mil (cerca de R$ 600 mil) por dia, segundo o Il Giornale, que revelou em julho a abertura da investigação.

Vista de Sarajevo a partir de um prédio abandonado e destruído durante a guerra, localizado na parte alta da cidade (imagem ilustrativa) © AP - Armin Durgut

A apuração foi motivada por uma denúncia apresentada pelo jornalista e escritor italiano Ezio Gavanezzi, contatado em agosto de 2025 pela ex-prefeita de Sarajevo, Benjamina Karic, que já havia acionado a Justiça da Bósnia em 2022 após a divulgação do documentário Sarajevo Safari, do esloveno Miran Zupanic.

Uma maioria de italianos

Em entrevista ao La Repubblica, Gavanezzi estima em “pelo menos uma centena” os italianos envolvidos, enquanto o Il Giornale fala em até 200, além de estrangeiros de outras nacionalidades.

Karic celebrou na terça-feira (11) no Facebook a abertura da investigação italiana e publicou a denúncia feita em 2022. O documento aponta que membros do Exército da Republika Srpska organizavam “excursões” para estrangeiros ricos, permitindo que disparassem contra civis de Sarajevo, inclusive crianças, a partir de posições militares nas colinas.

Durante o cerco de Sarajevo (1992-1996), o mais longo da guerra moderna, 11.541 pessoas foram mortas e mais de 50 mil ficaram feridas pelas forças sérvio-bósnias, segundo dados oficiais.

O conflito começou em 6 de abril de 1992, quando milhares de cidadãos de diferentes comunidades se reuniram diante do Parlamento para celebrar o reconhecimento internacional da independência da Bósnia-Herzegovina. Foi nesse dia que os primeiros snipers abriram fogo contra a multidão, mergulhando a cidade em um cerco que só terminou em fevereiro de 1996, dois meses após os Acordos de Dayton, assinados em Paris em 14 e 15 de dezembro de 1995.

As duas primeiras vítimas foram Suad Delibegović e Olga Sučić, um jovem casal abatido próximo à ponte sobre o rio Miljacka, hoje batizada com seus nomes, perto da famosa “Sniper Alley”.

Em 2012, no 20º aniversário do cerco, 11.541 cadeiras vermelhas foram alinhadas no centro da cidade em memória das vítimas. Neste ano, as comemorações permanecem discretas, limitadas à cerimônia tradicional na chama eterna, que também recorda a libertação de Sarajevo pelos Partisans antifascistas de Tito em 6 de abril de 1945.
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